Equilíbrio pessoal e profissional – mais do que retórica

14 01 2008

Que o equilíbrio pessoal e profissional é algo positivo, pelo menos a maioria das pessoas concorda. O objetivo deste artigo é mostrar que existe mais do que retórica em relação ao tema. As análises geradas são frutos da recente pesquisa de Mestrado em Gestão e Inovação que realizei na COPPE-UFRJ, cujo título foi ‘A importância da percepção do equilíbrio entre as vivências pessoais e profissionais como um meio de aumentar a satisfação de vida’. Foi curioso perceber que apesar de muito debatido na mídia de negócios, poucas pesquisas acadêmicas nacionais abordam o tema, mostrando o quanto ele ainda tem a evoluir, e assim, sair da retórica.

O desenvolvimento de novas tecnologias tem gerado formas inovadoras de equilibrar melhor o tempo, através do ‘tempo flexível’ ou do ‘escritório virtual’. Cabe ao homem saber utilizar os benefícios que esses recursos oferecem. O envelhecimento da população mundial, por sua vez, faz com que as pessoas ainda vivam bastante tempo após à aposentadoria e, assim, questionem a forma com que conduziram suas vidas, e, principalmente, o que farão no tempo livre. O avanço das leis trabalhistas em vigor em várias nações também oferece novas relações trabalhistas que permitam maior equilíbrio do tempo pessoal e profissional. As novas gerações que dominam os quadros organizacionais não aceitam com a mesma facilidade a dicotomia Vida x Trabalho, por que para essas pessoas a vida é algo que inclui o trabalho e não apenas o mesmo.

Esta foi justamente a primeira premissa da pesquisa: em vez de Vida Pessoal e Vida Profissional, foi utilizado o termo ‘vivência’, já que a vida é algo maior e que inclui as vivências pessoais, profissionais, as interferências entre as mesmas e inclusive um algo inexplicável, que cada pessoa percebe ao seu modo. Segundo os respondentes da pesquisa primária, a nota média de satisfação na vida (76,95) foi ligeiramente superior à satisfação nas vivências pessoais (73,88) e profissionais (72,83), indicando este algo a mais.

A pesquisa também verificou as horas médias nas vivências das pessoas. Elas querem dormir mais (7,41 versus 8,20 horas por dia). Também querem ter mais tempo nas vivências pessoais (7,06 versus 9,20 horas por dia), porém no formato típico, e não através de interferências do pessoal sobre o profissional. Logo, as pessoas querem menos tempo nas vivências profissionais (9,42 versus 6,4 horas por dia), e reduzindo drasticamente as interferências do profissional sobre o pessoal.

Para validar a hipótese que intitula o trabalho, os respondentes apontaram sua percepção de equilíbrio pessoal e profissional, as horas dedicadas às vivências pessoais e profissionais, e depois novamente a percepção do equilíbrio. Foi verificada esta relação entre uma maior percepção de equilíbrio e mais satisfação de vida. Os dados da pesquisa também indicaram uma influência superior da satisfação nas vivências pessoais sobre a satisfação na vida, comparada à satisfação nas vivências profissionais. Isto indica que negligenciar as vivências pessoais realmente pode conferir um alto custo para a vida como um todo.

Os entrevistados apontaram o autoconhecimento como o norte principal para a questão do equilíbrio pessoal e profissional. Uma vez acessados os seus valores, cabe à pessoa a disciplina de respeitá-los, sendo apontada como a principal dificuldade na incorporação da questão do equilíbrio no dia-a-dia. Uma entrevistada chegou a apontar o equilíbrio como uma competência a ser aprendida, assim como as competências profissionais que assimilamos nas faculdades e nas organizações.

Também foram pesquisadas duas empresas, uma apontada como modelo na questão do equilíbrio, e outra com deficiências na questão do equilíbrio. Dentre as lições aprendidas, revelou-se fundamental a inserção do tema do equilíbrio na agenda estratégica da organização. Somente assim indicadores, processos e ações confluirão em busca da disciplina necessária para o equilíbrio. Em termos de Gestão da Mudança, o apoio da alta direção revelou-se fundamental, paralelo ao apoio das lideranças locais que são as verdadeiras promotoras do tema nas equipes. Foi percebida na organização referência no tema uma alta relação da promoção do equilíbrio com os processos de Gestão de Pessoas, os quais norteiam formas claras de trabalhar o tema, havendo inclusive nesta empresa um curso sobre equilíbrio pessoal e profissional.

A grande conclusão desta pesquisa é que a percepção do equilíbrio pessoal e profissional realmente afeta a satisfação de vida. Entretanto, é fundamental a reflexão individual dos valores pessoais e organizacionais. Somente ela permite a tomada de consciência, que é fundamental para aumentar a sua satisfação de vida.

Fonte: André Dametto


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